Acrescentado às 9h31min deste 18.03.2025. Sei que hoje é feriado pelos 91 de emancipação de Gaspar de Blumenau. Sei que escrevi no sábado (quando todos me queriam calado), na segunda-feira (para dar mais luz e voz) e volto hoje extraordinária e excepcionalmente sobre o mesmo assunto: o inventado Vale Marmita de R$850,00 pela Mesa Diretora da Câmara de Gaspar (Alexsandro Burnier, PL, o presidente, Ciro André Quintino, o vice, MDB, e as secretárias Elisete Amorim Antunes, PL e Mara Lúcia Xavier da Costa dos Santos) para os seus 13 vereadores.
Depois de provocar, dissimular e resistir, o presidente do Legislativo gasparense, Alexsandro Burnier, PL, na tarde de ontem, e menos de 48 horas dele tentar a manobra achando que ninguém esclareceria este assunto à cidade, finalmente, anunciou que vai retirar a proposta na sessão ordinária de amanhã. Isto não está bem claro e como no tempo, isto não vai prejudicar os servidores da Câmara, usados e embrulhados no mesmo pacote. E Alexsandro só voltou atrás, depois que vereador Dionísio Luiz Bertoldi, PT, anunciar e protocolar na primeira hora de segunda-feira uma indicação e um Projeto de Lei com emenda supressiva deste penduricalho chamado de Vale Alimentação para os vereadores. Ou seja, Alexsandro sem clareza procedimental, diz que vai fazer a mesma coisa.
Quem venceu no recuou de Alexsandro e da Mesa Diretora da Câmara de Gaspar? A sensatez, a cidade, os cidadãos, as cidadãs, a transparência que estava, mais uma vez, infelizmente, estava totalmente comprometida, a razoabilidade, as redes sociais, esta sim, diante do silêncio e neutralidade da imprensa local e regional, se mostraram – incluindo gente que em parte apoiou os atuais vereadores e a eleição do próprio governo do “delegado prefeito” Paulo Norberto Koerich e do engenheiro Rodrigo Boeing Althoff, ambos do PL.
A massiva reação contrária da cidade veio mais cedo do que se esperava. Ela transmitiu, ao mesmo tempo, o descontentamento no rumo político-administrativo de como as coisas estão tomando no novo governo e nos eleitos na Câmara, e que pelo jeito, falsamente, empunharam à bandeira de mudanças e de transparência no exercício de representação política administrativa.
UM PASSO ATRÁS, MAS RESSENTIDO COM O REVÉS
Comedido e finalmente, orientado, Alexsandro, fez um vídeo curto e grosso recuando da malfadada ideia do Vale Marmita para os vereadores. É uma virtude recuar e reconhecer um erro. Entretanto, Alexsandro ainda não está convencido totalmente disso, talvez pela juventude na idade, na política e principalmente, sem noção da relevância da função politica que está investido para a cidade, cidadãos e cidadãs.
Ele culpa este blog, que ele próprio – e quase todos os políticos de Gaspar quando se veem desnudados aqui – diz que só “revela” mentiras e não é lido por ninguém – em razão disso se estranha esta preocupação -, como o responsável por acender o rastilho de pólvora no sábado e que dominou a cidade até ontem quando ele próprio resolveu apagá-lo.
Enquanto não apagou, Alexsandro, tentou menosprezar as consequências do que estava acesso e percorrendo a cidade. Enquanto houve pólvora acessa se espalhando e não mentiras, como alegou, Alexsandro, os vereadores e o mundo político como um todo foi se queimando. Alexsandro e os políticos de Gaspar e por culpa dele, tomaram o revés imposto pela população – e não por este blog – como uma humilhação, ou seja, nem político é de verdade. E como outros, está prometendo vingança. Tantos já prometeram e se vingaram. Será mais uma. A vida segue e continuarei a olhar a maré pois não dependo financeiramente das migalhas dessa gente.
Alexsandro, um jovem, um campeão de votos, que não consegue trabalhar em equipe, ler o que assina, pelo jeito, antecipar consequências, quer ser político profissional. De verdade? Ele está devendo como político neste recuo. Perdeu, porque foi esperto demais, ou serviu a alguém e está pagando o preço sozinho (republico na área de comentários um artigo do advogado Aurélio Marcos de Souza, originalmente publicado nas suas redes sociais. É sobre traição. Vale a pena ser lido).
Alexsandro, por exemplo, não revelou quem o levou a esta barca furada, comprometendo, mais uma vez a imagem dele e de um governo que ele diz representar. O autor, ou autores dessa jogada, não tiveram dúvidas em deixá-lo vulnerável na Câmara na hora em que a cidade se posicionou contra a manobra. Este assunto do Vale Marmita – que ele próprio detonou em outubro de 2021 quando foi apresentado pelo então presidente da Casa, Francisco Solano Anhaia, MDB, não pode, e não creio, pela experiência que provocou no passado, ter saído unicamente da cabeça dele.
No vídeo abaixo, Alexsandro deixou escapar, todavia, que além dos que foram se debandando no domingo e segunda-feira, estavam os que defendiam a ideia. Então, figurativamente, esses vereadores lhes tiraram a escada e o deixaram com a brocha na mão. Se Alexsandro não citar quem são esses “traíras”, ao final ele será o mais prejudicado de todos. Os seus próprios pares dele foram os que fugiram da raia quando a viram a água tomar a barca dele. Era com eles que Alexsandro, supostamente, deveria estar indignado, não com o blog. Mas, por enquanto, não.
Com o vídeo postado ontem por ele na sua rede social, Alexsandro também “desarmou” e isso ainda precisa ser conferido hoje, um Bloco do Marmitaço.
Este “bloco” prometia entrar no desfile de hoje na Aristiliano Ramos para desespero do “delegado prefeito” Paulo, do vice, dos vereadores da base e do próprio Alexsandro que estarão no palanque e depois vão comer cuca. E para encerrar. O que percorreu as redes sociais, é também um sinal bem claro ao governo sobre a decepção que tomou conta e tão cedo do eleitorado que votou pela mudança. Então, mais uma vez, avisados não por este espaço, mas pelo humor da cidade, todos estão. Muda, Gaspar!
TRAPICHE
Troça. O campeão de diárias e um dos que assinou o PL 10/2025, Ciro André Quintino, MDB, num encontro popular no domingo, ouviu de alguém a pergunta se ele votaria no tal Vale Marmita para os vereadores. Escorregando e não se sabendo se era brincadeira ou sério disse: “eu voto com o presidente [da Câmara, Alexsandro Burnier, PL]“. Ora, todos os vereadores votam antes do presidente da Câmara. E o presidente só vota por último e só se houver empate. Esta é a cara dos nossos políticos no poder de plantão e na oposição, infelizmente.
A contragosto, o prefeito Paulo Norberto Koerich, PL, está sendo convencido que precisa se reaproximar institucionalmente dos ex-prefeitos. Pedro Celso Zuchi, PT, já foi recebido por ele em duas ocasiões no gabinete. Mas, Luiz Fernando Poli e Adilson Luiz Schmitt, este do próprio PL de Paulo, que pediram agenda desde a primeira semana de janeiro, estão mofando na fila. Paulo pediu para abrir, finalmente, uma agenda para os dois. A data é primeiro de abril, dia da mentira.
Esses vices. Eles se elegem com a única missão de serem substitutos na ausência ou impedimento do titular. Mas, eleitos logo iniciam o protagonismo político administrativo disputando espaços ou até contra o titular. Em Ilhota, Joel Soares, MDB resolveu cortar o barato de Ademir Antônio da Silva, o Lico, PL. Cada um no seu quadrado. Em Gaspar, depois de 80 dias de governo, Paulo Norberto Koerich, PL, resolveu tomar conta do cercado dele. Antes, até parecia que Rodrigo Boeing Althoff, era o prefeito de fato.
Há meses, e não apenas deste governo que venho avisando que este tal projeto Fábrica, no ginásio vereador Gilberto Francisco Sabel (alô assessoria de imprensa, não mude o nome), na Rua Itajaí, era um projeto torto. Feito para servir a Educação, estava erradamente pendurado na secretaria de Assistência Social, sem orçamento, em ambas secretarias para ser tocado e com um nó no possível em mais um desvio de finalidade com o uso de recursos (quase R$1 milhão) do Fundo da Infância e Adolescência, o Fia. Bingo. Agora, a prefeitura, pausa para esclarecer o que está obscuro. Os meus leitores e leitoras já sabiam disso. A prefeitura de Gaspar, neste assunto, saiu na praça, em raro press-release esclarecedor.
Os técnicos concursados e efetivos da “nova” Superintendência de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, da secretaria de Planejamento Territorial de Gaspar, viram reconhecidos na Justiça – onde estão outras questões semelhantes denunciadas pelo Ministério Público – a solidez de seus atos contra autorizações irregulares de comissionados ao tempo do governo de Kleber Edson Wan Dall, MDB.
A MS Incorporações que toca o Pacoville III, acaba de desistir de um mandado de segurança para fazer valer o que a prefeitura tinha aprovado, depois de perder aqui e no Tribunal de Justiça uma demanda embargada pelos técnicos do Meio Ambiente, de Gaspar. Isto é um mau sinal para muitos outros questionamentos já judicializados e em vias de. Também é um alerta para as enjambrações do passado da Defesa Civil. Enquanto isso, a revisão do Plano Diretor está parada há quase dez anos, exatamente para os puxadinhos de gabinetes e entre amigos. Eles estão sendo impedidos na Justiça.
O Portal Transparência da prefeitura de Gaspar, 80 dias depois da posse do “delegado prefeito” Paulo Norberto Koerich, PL, continua com a cara do governo de Kleber Edson Wan Dall, MDB e sendo um caso do polícia. Não há transparência. Os dados contábeis da prefeitura, por exemplo, estão escondidos e incompletos nos acessos. Um caso de polícia contra a cidade e para quem pregou a transparência no governo. Um caso clássico para chamar o Ministério Público a intervir.
Só porque hoje é feriado, perguntar não ofende. Pode um motorista com um banco de horas de 1.600 delas a recuperar, ser escalado para fazer mais neste feriado de emancipação do município. Onde está a razoabilidade, mudanças e controles? Muda, Gaspar!
11 comentários em “CIDADE DÁ RECADO DURO E UNÂNIME À CÂMARA. PRESIDENTE E MESA DIRETORA VOLTAM ATRÁS EM MENOS DE 48 HORAS NA ESPERTEZA SILENCIOSA QUE ARMARAM PARA CRIAR O VALE MARMITA AOS VEREADORES”
Pingback: UM GOVERNO POLÍTICO E ESTRATEGICAMENTE ERRÁTICO SE DESGASTA NA ESPERTEZA DOS ALIADOS, BEM COMO FALTA ARTICULAÇÃO E TRANSPARÊNCIA COM A SOCIEDADE QUE O ESCOLHEU ESMAGADORAMENTE NAS URNAS PARA MUDAR O QUE SEMPRE FOI ASSIM - Olhando a Maré
Já temos a primeira baixa no primeiro escalão, a partir do dia 02/04, Haroldo Medeiros, o Suca, assume a fundação de esportes no lugar do professor Charles Petry. A verificar.
Sai um técnico, de mente aberta e agregador. Entra um boleiro aposentado. É a cara do novo governo de Gaspar
A CENSURA E A FALTA DE TRANSPARÊNCIA NA CÂMARA DE VEREADORES DE GASPAR
Ontem, houve a sessão da Câmara de Vereadores, depois do episódio da tentativa de se criar na surdina o VALE MARMITA para os vereadores
Revelei aqui em primeira mão, in formado pelo fogo amigo, e depois, com a notícia ganhando as ruas suplementado por parte da oposição
A cidade virou num alho, com o silêncio da imprensa (local e regional) e a explosão das redes sociais
Ontem, houve forte lavação de roupa suja entre os vereadores. E muita explícita trairagem. Ainda vou tratar disso. Vou esperar a imprensa olhar com os olhos típicos dela.
O que aconteceu após a sessão? O vídeo dela simplesmente sumiu do ar. Não está mais disponível para os gasparenses ver o circo, o picadeiro e seus personagens desnudados. Nada, mas nada mais do que escrevi aqui.
Falta de transparência explícita. Censura. Ontem à noite, questionei o presidente da Câmara. Ele jurou que não sabia de nada. Disse que iria ver com a parte técnica. Agora, são 8h45min, de quinta-feira, e nada. Ou o presidente não manda nada na casa ou mondou tirar a gravação do ar, e em ambos os casos devem apontar culpados ou dar explicações.
É por isso, que ele está embrulhado, traído e até, foi humilhado. É por isso, que o governo do “delegado prefeito” Paulo Norberto Koerich, PL, está perdendo credibilidade e o seu vice, Rodrigo Boeing Althoff, PL, está forçando o protagonismo para além de ser um mero vice que deve esperar a vez da vacância do cargo. Isto também ficou claro na sessão de ontem.
O sumiço da sessão não me diz respeito, diz muito para a cidade, bem e principalmente o conteúdo dela. Resumindo, até agora, nada mudou. E este foi o mote da esmagadora vitória de ambos e de parte que está na Câmara. Muda, Gaspar!
PARA ONDE O BOLSONARISMO VAI? por Mariliz Jorge Pereira, no jornal Folha de S. Paulo
A oposição fez piada sobre os patriotas pingados que deram as caras em Copacabana. O governador do Rio mandou maquiar a contagem e a PM cravou 400 mil —acabou o Carnaval, mas não a palhaçada.
Nessa guerra de narrativa, os números do domingo (16) não têm tanta importância ao se levar em conta que Jair Bolsonaro ainda tem cerca de um terço dos eleitores muito fiéis, como mostram pesquisas.
A boa notícia diante do fiasco do ato é a constatação de que o poder de mobilização do ex-presidente vem diminuindo e eu já posso tomar café da manhã na padaria do bairro sem tropeçar em idosos gritando “mito”. A má é que isso não parece ter a ver com sua popularidade. Gostaria de acreditar que o Brasil cansou daquela cara sebosa do Jair, mas não. Aquele mar de vazio no calçadão da praia mais famosa do Rio pode indicar apenas que boa parte de seus eleitores ainda curtia a ressaca do reinado do Momo ou está resignada com o seu destino e resolveu ficar em casa.
Isso não quer dizer que a direita está desmobilizada, como aconteceu na época das prisões relacionadas ao 8 de janeiro. Os ratos correram para o porão. Foi uma época de respirar com alívio, mas durou pouco.
Vamos encarar que o bolsonarismo nas ruas pode estar menor, mas não significa que esteja mais fraco. Resta saber para onde ele vai com a possível prisão do ex-presidente.
Bolsonaro será condenado juntamente com duas dúzias de milicos. Gostaria de ver um punhado de parlamentares na mesma situação. Como nem se fala na participação deles na tentativa de golpe, parece que o Judiciário vai dar essa aliviada. Mesmo assim, Eduardo, o filho 03, disse que vai pedir asilo nos EUA para poder brincar com o Pateta.
O julgamento dos indiciados deve render mais audiência do que o remake de “Vale Tudo”. Será épico, será histórico, será um grande dia. Teremos Carnaval fora de época, fogos de artifício como no Réveillon.
Diremos que a vida presta e vamos sorrir nas fotos. Mas e depois? O bolsonarismo já se estabeleceu como movimento político. A única dúvida é o quão perto do extremismo do seu criador cairá o fruto escolhido para substituí-lo na próxima eleição.
DOMÍNIO SOBRE SINAL DE INTERNET REVELA PODER ALARMANTE DO CRIME ORGANIZADO, editorial do jornal O Globo
É alarmante a desfaçatez com que o crime organizado tem se apoderado dos serviços públicos. No Ceará, provedores de internet que se recusam a pagar as taxas ilegais cobradas pelas quadrilhas são intimidados com sabotagem, rompimento de cabos de fibra óptica, tiros, queima de veículos ou destruição de equipamentos e instalações. Os ataques não cessaram nem mesmo depois da operação deflagrada pela Polícia Civil na semana passada, mirando integrantes do Comando Vermelho (CV), facção fluminense que atua também no estado.
No próprio Rio, as concessionárias têm dificuldades para entrar em comunidades dominadas por traficantes e milicianos para instalar serviços ou repará-los. No Complexo de Israel, conjunto de favelas na Zona Norte dominado pela facção Terceiro Comando Puro (TCP), ao menos sete suspeitos ligados ao traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, foram presos acusados de impor aos moradores o uso de internet e streaming do tráfico.
O monopólio sobre sinal de internet e a cobrança de taxas sobre serviços essenciais nas comunidades foram implantados por milícias, mas acabaram copiados também pelos traficantes, por permitir a capitalização rápida das quadrilhas. Ao longo do tempo, os negócios ilegais foram se diversificando. As organizações criminosas já lucram mais com atividades como venda ilegal de combustíveis, ouro, contrabando de cigarros e bebidas do que propriamente com o comércio de drogas, revelou estudo recente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Os episódios que se espalham pelo país expõem a situação de anomia na segurança pública. Não se pode admitir, num Estado de Direito, que traficantes ou milicianos determinem as empresas autorizadas a operar num território específico, muito menos permitir o monopólio do crime sobre serviços. Aos moradores, não resta muita saída. As empresas formais, quando não são expulsas, como aconteceu no Complexo de Israel, se retiram por falta de respaldo do Estado. E os consumidores são obrigados a contratar os serviços clandestinos.
O crescente poder das organizações criminosas impõe reação mais firme do Estado. Mais do que nunca, o governo federal precisa se engajar na luta ao lado dos estados, ou a situação não se resolverá. É verdade que o Ministério da Justiça e Segurança Pública elaborou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para combater o crime organizado prevendo maior participação federal e integração entre todas as forças da lei. Mas lá se vão quase dois anos e meio de mandato, e o tema ainda está em discussão no governo, além de enfrentar resistências no Congresso. Boas intenções não bastam para resolver problema tão grave e complexo, hoje uma das maiores preocupações dos brasileiros. É preciso agir logo.
A primeira fase vale para o caso do Vale Marmita dos vereadores de Gaspar. Já o resto é de gente experimentada. O daqui, de um patinho nas garras de leões
A MISSÃO QUASE IMPOSSÍVEL DE TARCÍSIO, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
É do ex-governador Leonel Brizola a máxima segundo a qual a política e o poder amam a traição, mas é uma questão de tempo passarem a abominar o traidor. Não parece improvável que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, tenha isso em mente ao tentar equilibrar-se entre agradar ao seu padrinho, Jair Bolsonaro, e, ao mesmo tempo, apresentar-se como moderado, democrata e, embora negue publicamente, possível candidato à Presidência em 2026. Esse equilíbrio é fruto de um evidente cálculo político que, tão astuto quanto arriscado, o levou ao palanque de Bolsonaro no domingo passado – convocado pelo ex-presidente para defender um projeto de lei de “anistia” a golpistas que, na prática, o livraria da cadeia e o reabilitaria para disputar a Presidência.
Se é verdade que o ato mostrou que o projeto para favorecer Bolsonaro não é exatamente uma causa popular, também é verdade que reforçou uma convicção sobre Tarcísio: o governador vai até o fim no apoio ao ex-presidente. O cálculo tem sua lógica: como Bolsonaro já está inelegível e provavelmente será condenado e muito possivelmente preso, é muito remota a hipótese de ser ele mesmo o candidato em 2026. Seus eleitores, contudo, estarão por aí, e talvez não aceitem votar em quem traiu o capitão, razão pela qual Tarcísio de Freitas se apresenta como leal a Bolsonaro neste momento de aflição, candidatando-se, assim, a ser o ungido do bolsonarismo para disputar a Presidência.
E Tarcísio está fazendo sua parte com denodo, ao defender o indefensável, isto é, o perdão aos golpistas – algo absolutamente inaceitável diante das evidências da tentativa de golpe de Estado, urdida por civis e militares, todos do entorno de Bolsonaro, inconformados com a democracia. Se agrada aos bolsonaristas, essa atitude provavelmente não será bem recebida na grande franja do eleitorado que rejeita Bolsonaro sem necessariamente apoiar o presidente Lula da Silva e o PT.
Para não deixar dúvidas sobre sua disposição de apresentar-se como candidato, Tarcísio imprimiu a seu curto pronunciamento o ânimo de um discurso de campanha. Vestindo-se com a camisa da seleção brasileira de futebol, o tradicional uniforme do bolsonarismo, mas com a versão azul, diferenciando-se dos demais, o governador paulista defendeu a anistia a Bolsonaro e, ao mesmo tempo, listou problemas nacionais como a inflação e a violência. Não hesitou em chancelar a tese de Bolsonaro de que a tentativa de golpe não passou de uma “historinha” inventada e, claro, atacou os petistas, os “caras que assaltaram o Brasil, que assaltaram a Petrobras” e que “voltaram à cena do crime”.
No mesmo fôlego, sugeriu que uma eventual condenação de Bolsonaro se destina a impedir o ex-presidente de voltar ao poder. Para o governador, isso é “medo de perder a eleição”. Com esse tipo de discurso, Tarcísio se aproxima perigosamente das teorias da conspiração que animam a extrema direita e, ao mesmo tempo, coloca em dúvida a lisura das instituições democráticas. Nisso, Tarcísio se iguala aos petistas. Quando Lula da Silva foi preso, em abril de 2018, o líder do MST, João Pedro Stedile, declarou: “Querem prendê-lo para tirá-lo da campanha eleitoral. Por isso, é um golpe. Um golpe do Poder Judiciário contra o povo brasileiro. Prender o Lula é prender o povo”. O espírito, portanto, é o mesmo: desmoralizar a democracia. Não é um bom cartão de visitas para quem pretende se apresentar como um democrata moderado para presidir o Brasil.
Trata-se de uma operação de alto risco de Tarcísio de Freitas. O governador certamente sabe que todos os que se insinuaram como herdeiros dos votos de Bolsonaro foram sabotados pela máquina bolsonarista de destruição de reputações. Logo, se quer mesmo liderar uma espécie de “bolsonarismo sem Bolsonaro”, Tarcísio parece ter entendido que precisa rezar o credo de uma seita cujo evangelho requer fidelidade absoluta ao ex-presidente, ao mesmo tempo em que, para não afugentar eleitores de centro, terá de dar demonstrações de respeito à democracia. Por onde quer que se olhe, trata-se de uma missão quase impossível.
É por essas e outras que o instituto da reeleição deveria ser banido do ordenamento pátrio. Para todo e qualquer cargo.
SUPREMO ESCULACHADO, por Carlos Andreazza, no jornal O Estado de S. Paulo
O Parlamento aprovou a continuidade do esquema do orçamento secreto. Mais uma vez. E sem qualquer vergonha – mais uma vez. O Congresso formalizou a criação de um sistema de parasitagem da emenda de comissão, a superfície sobre a qual se desenvolve a apropriação autoritária e opaca de mais de R$ 50 bilhões do Orçamento em que nada mais caberia.
Garantidos mais de R$ 50 bilhões do Orçamento em que – opa – nada mais caberia. De modo que ficamos assim, prioridades postas: a grana do Péde-Meia, para os estudantes do ensino médio, por fora; a das emendas, para asfaltar as paróquias dos vereadores federais, por dentro.
Sistema de parasitagem da emenda de comissão. No que consiste? No estabelecimento – à margem da Constituição – da emenda de bancada partidária, o líder partidário tornado a nova fachada ocultadora do verdadeiro apontador dos dinheiros.
Trata-se de uma sofisticação do esquema, deitada camada adicional de blindagem à autonomia pervertida do Legislativo. A emenda é de comissão. O seu destino, indicado pela liderança de partido. Uma excrescência. Um esculacho. Esculachado, o Supremo Tribunal Federal.
Flávio Dino, ministro do STF, não considerou tão ruim: o arranjo ainda estaria “muito longe do ideal, mas passos concretos foram dados nesses oito meses”. A formulação trai vício e faz prosperar a ideia de avanço – de “mais transparência”. É uma armadilha, já que luzinha acesa num canto de salão escuro garante tanto a claridade na esquina iluminada – vão-se os anéis – quanto o breu no restante do quarteirão. É o breu no restante do quarteirão, preservados os dedos, que interessa e alarma.
Falamos – sempre bom lembrar – de princípios constitucionais. De uma penca de princípios constitucionais vilipendiados. E, em matéria de princípio constitucional, não cabe relativização – apanágio da atividade política. Em matéria de princípio constitucional, ou o objeto está absolutamente nos conformes – ou inconstitucional será. Não existe “mais transparência”.
Se Dino avalia que a solução política está “muito longe do ideal”, tem obrigação de suspender a operação das emendas. Obrigação. O ministro precisa resolver se será juiz de Corte constitucional, controle de constitucionalidade à frente, ou se continuará subordinando o controle de constitucionalidade aos interesses-ventos das negociações políticas. Precisa decidir se será guardião da Constituição ou senador togado e líder do governo Lula no Supremo.
Precisa afinal esclarecer se cumprirá o seu dever, sem mais mesas de conciliação, donde agindo para sustar a emenda de líder partidário, ou se se manterá exercendo o poder político, como gestor xandônico de inquéritos permanentes, faca no pescoço dos parlamentares, e senhor-filtro dos tempos-conveniências para as liberações das emendas.
DEMONSTRAÇÃO DE FRAQUEZA, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
Jair Bolsonaro fracassou miseravelmente ao convocar um ato em Copacabana que reuniria “1 milhão de pessoas”, segundo sua projeção, com o evidente propósito de demonstrar força política às vésperas do julgamento da denúncia oferecida contra ele ao Supremo Tribunal Federal (STF). No domingo passado, até fez calor na orla mais famosa do Brasil, mas, se houvesse um termômetro no calçadão do Posto 5 para medir a capacidade de Bolsonaro para mobilizar as massas em torno de uma pauta que só interessa a ele – a anistia aos golpistas –, o aparelho teria congelado em pleno verão carioca.
Especialistas nesse tipo de monitoramento, de diferentes entidades, calculam que havia entre 18 mil e 30 mil pessoas, número muito abaixo do que o bolsonarismo costuma mobilizar, sobretudo no Rio, reduto do ex-presidente. Diante desse fiasco, foi comovente o esforço do governador do Rio, o bolsonarista Cláudio Castro (PL), de fazer parecer que havia mais gente – 400 mil pessoas, segundo o cálculo doidivanas da Polícia Militar fluminense.
Seja qual tenha sido o número de cidadãos que saíram de casa para emprestar apoio a um golpista que ainda insiste em atacar as instituições republicanas e insinuar que venceu a eleição de 2022, é fato que havia muito menos gente em Copacabana do que Bolsonaro imaginou que haveria. Parece evidente que o poder mobilizador de Bolsonaro está diminuindo, o que é uma péssima notícia para quem precisa de apoio político para escapar da prisão e uma ótima notícia para um Brasil exausto das patranhas do capitão.
Restou claro que o perdão aos golpistas, absolutamente inaceitável num país que se pretende sério, não é uma pauta do Brasil. Não é nem sequer pauta de uma direita responsável, uma direita que, genuinamente, preocupa-se em oferecer uma alternativa político-eleitoral ao governo de turno coadunada com os anseios comuns à maioria dos brasileiros. A anistia é uma agenda que só interessa a Bolsonaro, uma espécie de boia para o encalacrado ex-presidente à beira de acertar suas contas com a Justiça.
Desde o início de sua vida pública, Bolsonaro se notabilizou pela insurgência contra os princípios democráticos mais elementares. Sempre foi um vândalo político, personificando, com o passar do tempo, as figuras do mau militar, do mau parlamentar e, enfim, do mau presidente. Ao longo desse tempo, Bolsonaro sempre se safou. Quando deveria ter sido expulso em desonra do Exército, concertou-se uma saída no âmbito do Superior Tribunal Militar (STM). Quando deveria ter sido expelido da Câmara dos Deputados por quebra de decoro um sem-número de vezes, contou com o espírito de corpo. Quando deveria ter sido apeado da Presidência da República em razão da pletora de crimes de responsabilidade que cometeu, Bolsonaro contou com o cálculo político de seus adversários.
Agora, que a pesada fatura de seus ataques à democracia parece estar chegando, Bolsonaro, decerto muito angustiado com o destino jurídico-penal que o aguarda, parte em sôfrega campanha por uma anistia que não tem lugar num Brasil que se projeta mais civilizado e mais democrático no futuro. Nem que para isso ele tenha de ludibriar seu próprio público com a falácia de que estaria preocupado com “as senhoras idosas” que teriam sido condenadas pelo STF por sua participação nos atos golpistas. É possível avaliar que, de fato, o STF pode ter sido excessivamente severo ao dosar as penas de determinados condenados pela insurgência violenta contra a eleição de Lula da Silva, algumas delas somando mais de 17 anos de prisão. Outra coisa, muito diferente, é pugnar pelo perdão dos que tentaram derrubar a ordem constitucional vigente desde 1988 como nunca se tentou desde a redemocratização do País.
Ao apresentar a anistia como se fosse uma prioridade nacional, Bolsonaro abastarda uma das principais conquistas da sociedade nestes 40 anos de Brasil redemocratizado: a luta pelo aprimoramento de nossa democracia não se coaduna com o perdão àqueles que tentaram destruir suas fundações. Como ficou claro, o povo brasileiro não apoiará quem, por conveniência, tenta manipular a memória coletiva e distorcer os fatos em benefício próprio.
GOLPE NA CÂMARA: A TRAIÇÃO QUE VIROU LIÇÃO EM GASPAR, por Aurélio Marcos de Souza, advogado, ex-procurador geral do município de Gaspar (2005/08), graduado em Gestão Pública, pela Udesc e ex-procurador da Câmara de Ilhota. Artigo extraído das suas redes sociais
Na política, como na vida, a confiança é um bem precioso. Porém, nada dói mais do que descobrir, da pior maneira possível, que aqueles em quem confiamos podem ser os primeiros a nos abandonar quando as coisas se complicam. O chamado “fogo amigo” tem essa crueldade: atinge pelas costas, quando menos se espera, e deixa marcas que demoram a cicatrizar.
O presidente da Câmara de Vereadores de Gaspar acreditava estar jogando dentro das regras do jogo político ao propor um projeto de lei. Tinha certeza de que contava com o apoio da Mesa Diretora, composta por quatro membros – incluindo ele próprio, que só votaria em caso de empate. Ao assinar o projeto, os outros três membros da Mesa pareciam estar ao seu lado. Além disso, imaginava que teria, pelo menos, mais três votos de vereadores fora da Mesa, garantindo o empate e permitindo que ele decidisse a questão com seu voto de minerva. Mas a política tem seus próprios caprichos, e o que parecia seguro transformou-se rapidamente em um campo minado.
Quando a repercussão negativa tomou conta da comunidade, os mesmos que haviam assinado o projeto trataram de se afastar. O apoio sumiu, os discursos mudaram e, de repente, ele se viu sozinho, carregando um peso que deveria ser compartilhado. O que era para ser uma estratégia bem calculada virou uma armadilha silenciosa. Os aliados desapareceram, os colegas se esconderam e a responsabilidade foi jogada inteiramente sobre seus ombros.
Não há como medir em números exatos o impacto do fogo amigo na política, mas as consequências são sempre devastadoras. A confiança se perde, as alianças se fragilizam e a sensação de traição pesa como um chumbo no peito. Muitos políticos aprendem tarde demais que a lealdade é volátil e que as alianças, construídas por conveniência, se desfazem no primeiro sinal de tempestade.
Hoje, o presidente da Câmara entende, na pele, o que significa ser deixado para trás. A sensação de levar um tiro pelas costas não é só uma metáfora – é a dura realidade de quem apostou em parcerias que se provaram frágeis. E essa é uma lição que jamais será esquecida.
O episódio deixa um alerta claro: a política não se sustenta apenas em discursos e promessas, mas sim em gestos e coerência. O preço da ingenuidade pode ser alto demais, e confiar cegamente pode levar à queda mais dolorosa.
Agora, cabe a ele decidir se esse episódio será apenas uma ferida aberta ou uma lição para o futuro. A política, no fim das contas, não é para os ingênuos. É um jogo onde os verdadeiros aliados não são os que assinam documentos em reuniões fechadas, mas sim aqueles que permanecem firmes ao seu lado quando as pressões aumentam. E essa é a diferença entre ser lembrado como vítima de uma traição ou como alguém que aprendeu e se fortaleceu com ela.
Por fim, na guerra e na política, não é apenas o soldado que se vê vulnerável no campo de batalha. O comandante, por mais estratégico e experiente que seja, também está exposto. QUANDO OS VENTOS MUDAM E AS LEALDADES SE DISSIPAM, ele percebe que a posição de liderança não o protege dos ataques – pelo contrário, o torna um alvo ainda mais evidente.
O verdadeiro teste não é apenas sobreviver ao fogo amigo, mas APRENDER A IDENTIFICAR quem realmente está ao seu lado quando “os primeiros tiros são disparados”.